quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Conto: Nem tudo é o que parece

No dia a dia, é possível presenciar diversos momentos: beijos, abraços, brigas, pedidos de casamentos, términos ou até mesmo, descontração entre amigos. A parte difícil de tudo isso é saber se as situações são realmente o que aparentam.

Nina era desenhista e como qualquer estudante, treinava muito suas técnicas, diariamente. Tinha um cabelo cruto, no estilo joãozinho e de cor verde, grandes olhos azuis e usava óculos de grau, de armação quadrada e preta. Na maioria das vezes, usava lápis de olho preto, pois realçava seus olhos e combinava com a sua pele branca.

Todos os dias, no final da tarde, ela pegava sua mochila florida com botons nerds, colocava seu material de desenho e seguia em direção do Imperator, no Méier. Sentava num banco grande de madeira, próximo a bilheteria, de frente a cafeteria e longe o suficiente da bomboniere, que sempre cheirava a pipoca, uma das suas maiores perdições.
O horário era escolhido de forma estratégica, justamente por começar as sessões de cinema e mais tarde, as peças de teatro. O objetivo era desenhar o maior número de esboços possíveis, para ganhar agilidade e melhorar suas habilidades, além de poder observar as pessoas quando estão distraídas.

Ao voltar para casa, sua irmã mais velha, Miranda, era sua crítica pessoal. Ela também desenhava há mais tempo e trabalhava como arquiteta. Nina gostava da maneira que sua irmã fazia suas críticas. Nunca a colocava para baixo, era sempre um elogio acompanhado de dicas, mostrando onde ela podia melhorar e onde estava perfeito. Críticas construtivas.
Após avaliar os desenhos, Miranda começou a folear o bloco. Parou ao ver o desenho de um casal de mãos dadas e olhando, fixamente, um para o outro. Mostrou o desenho para Nina e disse:
- Que bonito casal apaixonado!
- Não é um casal apaixonado. Eles estavam terminando. Ficaram de mãos dadas por um momento e fixaram o olhar, um no outro, só Deus sabe o porquê, mas assim que ele foi embora, ela começou a chorar compulsivamente - disse Nina, enquanto se sentava na cama, ao lado da irmã.
O segundo desenho era de um senhor, cabisbaixo, sentado na cafeteira, sozinho.
- Um viúvo sentindo falta da sua esposa - arriscou Miranda.
Nina estava gostando daquele jogo.
- Não. Estava apenas esperando sua esposa. Assim que ela chegou, ele não parava de sorrir.
Miranda já estava ficando chateada. O terceiro desenho era de um rapaz segurando um buquê de flores.
- Rá! Esperando a namorada. Comemoração de namoro!
Nina caiu na gargalhada com a empolgação da irmã e assentiu, em confirmação, com a cabeça. O quarto desenho era de um grupo de amigos. Eles estavam sentados na cafeteria, mas foram desenhados de costas.
- Uma saída de amigos. Uma confraternização.
O quarto ficou em silêncio por um momento. Nina demorou a responder.
- Eu ouvi a conversa, por isso sei a história. Tinha mais uma menina no grupo, mas ela morreu tinha uma semana, na época em que fiz o desenho. Ela estava andando na calçada, quando foi atropelada por um motorista bêbado. Era a mais animada de todos e amava café, por isso a confraternização foi numa cafeteria. Eles estavam fazendo uma homenagem a ela.
Miranda encarou o desenho por mais tempo que gostaria, então falou tão baixo, que parecia mais um sussurro.
- Engraçado como a primeira impressão nos engana. Achamos que conhecemos as pessoas ou o que elas passam, mas não temos a menor ideia. Nem tudo é o que parece - fechou o bloco.












sábado, 6 de janeiro de 2018

O voo

Em novembro, fiz uma viagem a Foz do Iguaçu (assunto para um próximo post), com direito a uma conexão em Congonhas. Admito que tenho um pouco de medo de voar, sempre fico tensa, ansiosa, com dor de barriga e até mesmo sem fome. E detesto, principalmente, voar na chuva, por algo chamado: TURBULÊNCIA! Quando entro no avião, penso em todas as séries, filmes e vídeos de YouTube, que tenha quedas de avião, começando pelo filme Premonição.
Após esperar pelo meu voo por cinco horas, pude refletir um muito (e mais um pouco) e percebi que não tenho medo de voar ou morrer (caso o avião caia), tenho medo de ir embora e não fazer tudo que tenho vontade e planejado.
Planejo muitas coisas a longo prazo e faço listas, com metas, para manter o hábito e porque gosto, sempre aproveitando o momento, o agora, mas quando entro no avião, penso nas pessoas que amo e o quanto falo pouco isso para elas, o quanto ainda quero estudar, aprender, crescer, a viver, a conquistar, a família que quero construir, as viagens que ainda quero e vou fazer. Morrer não faz parte dos planos, pelo menos não agora. E refletir sobre isso me faz pensar ainda mais sobre: aproveite o agora, mesmo com um futuro inteiro planejado, porque o medo não é de morrer. É de deixar tudo o que amo para trás e perceber que poderia ter feito mais. Muito mais.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Contos: A quem possa interessar

Paraíso é uma cidade pequena, com alguns costumes, pequenas tradições e muitas lendas urbanas. Em torno da cidade, há uma floresta com trilhas que dão para partes da cidade, escondida em meio as árvores. Os moradores, em sua grande maioria, são nascidos e criados na cidade. Alguns chegam a partir, mas logo retornam. Os de fora, como são chamados aqueles que não eram nascidos em Paraíso, vêm aos poucos, porém quase nunca vão embora, ficam até o fim de suas vidas.

Toda manhã, Julia acorda as seis da manhã, toma banho, veste sua calça jeans desbotada e rasgada na altura dos joelhos, sua camisa de manga comprida preta, seu coturno preto, metodicamente amarrados e seu casaco felpudo vermelho. Coloca sua bolsa transpassada em diagonal ao corpo e segue pela Trilha dos Apaixonados. Reza a lenda, que os casais que passeavam por essa trilha e parassem, mesmo que por uns instantes, na Ponte do Eterno, o amor deles durariam para sempre. A trilha termina num lugar chamado Muro das Lamentações e é para onde Julia está indo.

É irônico o Muro das Lamentações ficar no final da Trilha dos Apaixonados, mas o Muro não era apenas para se lamentar. Lá você deixa cartas, entre uma pedra e outra, para que alguém leia. O intuito não era receber respostas, era apenas para expor seus sentimentos, fossem eles apaixonados, de felicidade, tristeza, desabafo e/ou despedida. As vezes, deixavam até desenhos. Ninguém sabe ao certo como surgiu esse costume, nem mesmo os antigos, como eram chamados os mais velhos da cidade. O Muro é feito com grandes rochas empilhadas e muito alto, denominando o limite da cidade. A sensação é que o muro não foi construído, apenas existe.  Fato curioso sobre o Muro é que mesmo com três cidades vizinhas, além dos moradores de Paraíso, deixarem cartas lá, ninguém nunca se encontrou. Nem pra deixar as cartas, nem quando vão buscá - las. Os antigos falam que o lugar é místico. Os jovens chamam apenas de coincidência.

Vinte minutos depois de passar pela Ponte do Eterno, Julia chega ao Muro. Recolhe as cartas de forma lenta e as coloca com cuidado em sua bolsa. Seu pequeno ritual de toda manhã é: tomar café lendo uma das cartas, escolhida de forma aleatória. E lê o restante, após as aulas, antes da lição de casa.
Nessa manhã não foi diferente. Ao retornar a sua casa, Julia pegou uma carta e no envelope dia: "A quem possa interessar", numa letra pequena e bem desenhada. Julia esperava que não fosse uma carta de despedida, porque geralmente, são cartas de pessoas suicidas e ir para escola depois de ler alguém dizer adeus ao mundo, não era nada motivador. Abriu o envelope e começou a ler.

"Você é do tipo de pessoa que quando vê um casal apaixonado na rua, se abraçando ou se beijando e fica feliz, mesmo que a sua vida amorosa esteja uma bosta? Bem, eu sim. Me chame de estranha, esquisita, mas prefiro romântica incurável. 
Uma vez deixei de acreditar no amor. Simplesmente achava que não era algo pra mim. Eu sou a pessoa que as outras pessoas costumam abandonar. Ou magoar. Ou mentir e magoar. 

Já fui casada uma vez. Era um casamento estável, com algumas brigas esporádicas, como em qualquer outro relacionamento. Meu (ex) marido não era perfeito, assim como eu ou como qualquer outra pessoa, mas na minha cabeça, tudo seguia feliz. Tudo bem, que eu estava passando por um momento difícil de depressão e pensamentos suicidas e meu marido? Estava dando atenção e ajudando a melhor amiga, que trabalhava com ele, na época, chefe do departamento. Chegava tarde, quase todos os dias e trabalhava em alguns feriados, para ajudá - la no novo cargo. 

Na semana em que mais brigamos, ele pediu separação. Alegou que não estava pronto para estar casado, que queria pensar na vida, nas decisões que tinha que tomar e que a vida de casado não era para ele, pelo menos, não naquele momento. Disse que ele estava errado, que não sabia o que estava fazendo, que não poderia apenas não se sentir pronto. Estávamos morando juntos há dois anos. Ele não quis saber. Eu insisti pra fazer dar certo, ele não quis. Como chorei, sofri, implorei pra voltar, até entender que era realmente o fim. Então, me isolei. Não estava bem, estava perdida, como nunca estive na vida. 
Não sei você, mas eu quando começo um relacionamento, sempre, eu disse sempre, planejo cada coisa, cada passo, inclusive o que fazer depois sem a pessoa amada, caso o relacionamento chegue ao fim. Com ele não fiz isso. Foi a primeira pessoa que quis tudo: casamento, casa gigante, filhos, cachorros. Não planejei caso desse errado, porque nunca imaginei que daria. 

Naquele ano, nada poderia ser feito, então planejei o que fazer para o próximo. Cursos, sair do emprego, estágio, arrumar emprego novo, colocar as leituras em dia, etc. Não que meu casamento me impedisse de  fazer todas essa coisas, mas de uma certa forma, a mulher se anula, mesmo que de forma involuntária. 

Quatro meses depois, meu (ex) marido pediu para voltar, mas eu não quis. Ainda estava muito magoada, não confiava mais nele. Não queria sofrer, não precisava mais sofrer. Estava no comando da minha vida e, de certa forma, amava aquela nova fase. 
Saí com outras pessoas. Algumas com significado, outras não. Saí com as amigas, fui a happy hour, bebedeiras, viagens, noites na Lapa e muitas, muitas bebedeiras. Até mandei mensagem bêbada para o ex. Não me julgue, você já fez isso. Se não fez, fará. Acredite. 
Fiquei com um cara, só nos beijos e depois de duas semanas, ele se revelou um grande babaca. Não que ele tenha dado em cima da minha melhor amiga ou algo assim, mas era o tipo de cara que vive de status de fodão e por isso, mentia compulsivamente. Oficialmente desisti. Me vi focada na minha profissão e casada com a mesma. Eu seria a tia legal que iria cuidar dos filhos das minhas amigas. 

Meses se passaram e fui apresentada a um rapaz. Dois anos mais novo que eu, tem os mesmos gostos que eu (de uma forma estranha e assustadora) e de uma personalidade ímpar. Apesar da timidez de ambos, conversamos por horas, em um bar que fomos apresentados e trocamos telefones. Passamos a conversar por mensagens, todos os dias. Deixamos claro nossas intenções, de irmos devagar. Ele concordou e entendeu, a forma que estava magoada. Saímos diversas vezes: cinemas, bares, restaurantes, baladinhas e tudo estava indo muito bem. Tão bem que eu estava apavorada com rumo de nossas vidas. O sentimento ia crescendo, mas eu não queria admitir, estava com medo de ser magoada de novo. Pensa numa pessoa que cria expectativas? Sou eu. Tenho até expectativas adolescentes, de tanto que crio. 

Saímos. Ficamos. 
De novo. 
De novo.
De novo. 
De novo. 
Me vi apaixonada. Ele também. Tive medo. Ele não. 
Mesmo com medo, me joguei no desconhecido. No novo relacionamento. 
Pulei, de olhos abertos e com medo, mas também me joguei com amor, paixão, felicidade e a melhor parte de todas, reciprocidade. Ele fez me sentir segura, como nunca me senti. Ele acha que sou capaz de tudo nessa vida. Tudo mesmo. 

Ele prometeu nunca me magoar, mas acho que ninguém tem real intenção de magoar quem ama. Acaba acontecendo. Porém, gosto das suas atitudes, que afirmam cada vez mais, que ele não tem intenção me machucar. 


Não sei quem está lendo essa carta, nem se chegou ao fim dela. Espero que sim. Tenho uma última coisa a dizer: confie na sua intuição. Se acha que algo vai dar errado, não faça. Se acha que alguém possa te magoar, mas mesmo assim quer tentar? Tente, mas mantenha os pés no chão. Siga a sua intuição, ela me ajudou muito, a sua pode te ajudar também." 

















quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Contos: Morena

Dudu era um rapaz tranquilo e calado. Não gostava de jogar conversa fora, apenas para preencher o silêncio. Era fã de conversas substanciais. Dizia para si mesmo "seja menos anti social", então, como de praxe, almoçava todas as sextas-feiras, com seus colegas de trabalho. Ele sempre ficava isolado, no canto da mesa, enquanto todos falavam ao mesmo tempo, coisas sobre: futebol, mulheres e política.

Em um desses almoços, Dudu sentara no seu lugar sempre, enquanto o pessoal discutia fervorosamente, sobre campeonato Brasileiro, ele olhou para uma grande janela de vidro do restaurante, que dava diretamente para rua. Foi quando ele a viu. Tudo a sua volta ficou devagar, seu coração acelerou, as vozes se calaram. Com o olhar, ele a acompanhou. Ela era magra, sua pele morena, seus olhos eram grandes e verdes, sua boca carnuda, pintada, com um batom vermelho sangue. Seu cabelo cacheado, preso num coque, no alto de sua cabeça. O vestido longo, preto com grandes flores azul escuros, voava levemente, quando caminhava. Ela o olhou por um instante. Desapareceu. O momento acabou. Tudo voltara ao normal. Dudu ficou imaginando se a veria de novo e se sentia tão perdido quanto Alice. "Quanto tempo dura o eterno? Ás vezes, apenas um segundo."

Na semana seguinte, almoçou todos os dias no mesmo lugar, na esperança de encontrá- la. Pensou que estava enlouquecendo. Talvez estivesse. Então, achou melhor seguir sua vida normalmente.
Na segunda-feira, almoçou e logo depois quis comer algo diferente. Conhecia um lugar perfeito: pequeno, de esquina, com tortas caseiras. A loja parecia ter parado no tempo, se o dono cuidasse, um pouco mais do estabelecimento, seria ainda mais linda. Ao chegar, Dudu travou. Sua Morena estava lá. "Sua Morena", pensou ele, "Ela nem sabe que existo."
Dessa vez, seu cabelo estava preso num trança e usava roupa social, que marcava cada curva de seu corpo. Ela comia lentamente, um pedaço de torta, de morango com chantilly e cada garfada, ficava mais feliz. Ela reparou em Dudu. Limpou a boca com o guardanapo, sorriu e disse: "Dia do lixo". Ele sorriu de volta. Ela o encarou por um tempo, mas como ele ficou em silêncio, foi embora.

Dudu se xingava constantemente: "Seu imbecil. Burro. Idiota. Perdeu a maior oportunidade da sua vida." Agora era tarde para se lamentar. Após semanas, evitando pensar no ocorrido, resolveu ir a uma livraria e, chamou um colega de trabalho. E para sua surpresa, o tal colega entendia muito de tudo e ficou feliz, pela primeira vez, por ter socializado.
Descobriu que perto do trabalho, tem um pub, que as quintas- feiras, tem promoção de happy hour. Chamou os colegas de sempre, porém nenhum deles puderam ir. Foi sozinho.

No caminho, viu uma moça, na frente de um prédio, chorando compulsivamente e sendo consolada pelas amigas, que lhe abraçavam. Quando chegou mais perto, viu que era "sua Morena". Foi até la, entregou um lenço e foi embora. "O que acontecia ali, não era da sua conta", dizia pra si mesmo. Até que sentiu uma mão, puxando levemente seu braço. Era ela. Enxugava o restante das lágrimas, cuidadosamente, para não borrar mais a maquiagem. Disse que ela era o rapaz do restaurante, da loja de tortas e da livraria. Ele ficou surpreso e assentiu. Ela agradeceu o lenço e ele a convidou para o happy hour. Aceitou.

Ele entendia sobre ela lembrar dele, do restaurante e da loja, mas quis saber da livraria, porque tinha plena certeza de que não a viu. Ela disse que o viu, entre as prateleiras, com um amigo, mas não sabia como ou se podia abordá -lo. Então, ficou na dela. Ela quis saber, quem hoje em dia, anda com um lenço de pano, no bolso. Dudu explicou que foi criado com seu avô, que o ensinara a sempre a andar com um lenço, em caso de uma donzela estivesse em apuros. Nos tempos atuais, ele sabia que, as mulheres não precisam ser salvas. São fortes, independentes e podem lidar, sozinhas, com seus problemas, mas que uma ajuda é sempre bem vinda, mesmo que seja só um lenço, pra enxugar as lágrimas. Ela sorriu. Conversaram sobre tudo: cinema, séries, livros, faculdade, trabalho, família, amores e desamores. Ela explicou o porquê de estar chorando, mesmo Dudu não tendo perguntado, mas ele ouviu atentamente. No fundo, estava curioso.
Há um ano, ela namorava esse rapaz, que conheceu através de um amigo. Eles tinham um relacionamento saudável, com brigas esporádicas, normal em qualquer relacionamento. Uma vez, ele fez uma viagem a trabalho e um dia antes de voltar, disse que ficaria mais dois dias, pra conhecer a cidade. Mesmo não tendo sido convidada pelo namorado, afim de lhe fazer uma surpresa, foi até ele. Chegando lá o viu com outra. Como se não bastasse, a outra era sua melhor amiga. "Melhor amiga", ela enfatizou essa última parte, fazendo as aspas com os dedos. Há seis meses, ela vinha pedindo pro ex, buscar o restante das coisas dele, entretanto, sempre arrumava uma desculpa. Querendo se livrar de vez daquilo tudo, mandou uma mensagem, dizendo que se ele não viesse buscar suas coisas, no trabalho dela, no final do expediente, jogaria tudo no lixo. Ele foi, pegou a caixa e falou, aos berros, que a culpa dele ter a traído, era dela. Por ser uma mulher chata, frígida, sem graça, melosa e grudenta. Que ele fez um favor, ficando com ela, por todo esse tempo, que ninguém mais ia querê-la, pelos motivos citados anteriormente. Ela deu um sorriso, sem graça. Dudu apenas disse: "Seu ex é um idiota. Não deve ouvir pessoas idiotas." Ela caiu na gargalhada.
Na hora de ir embora, trocaram telefones. Raquel. "Sua Morena", se chamava Raquel.

Na manhã seguinte, ele a convidou para almoçar. E os dias seguiam assim: eles almoçavam juntos, iam embora juntos e o happy hour era de lei. Tantas coisas em comum. Conversas infinitas. Risadas constantes. Troca de olhares.

Uma noite, enquanto esperavam a chuva forte passar, Dudu perguntou: "Posso te beijar?" Ela o olhou, depois de alguns segundos, respondeu: "Não sei porque ainda não beijou."
Ele a puxou pra si e a beijou apaixonadamente. Mais uma vez, o tempo parou.



































domingo, 3 de setembro de 2017

Por que os mortos?

Nove meses atrás, me inscrevi num curso de Técnicas de Necropsia*e, cursei ele por seis meses. Em maio desse ano, me inscrevi em outro curso, de Tanatopraxia**. Sempre que falo o que estudo e com o que trabalho (com os mortos), ouço: "Você é maluca", "Você sente fome?", Você come dentro do laboratório?", "Sonha com isso não?", "Não tem medo?", etc.  Uma única vez, me perguntaram: "Mas por que os mortos?" e só soube responder: "Porque os vivos me perturba muito." Mas na verdade, não sabia exatamente a resposta para aquela pergunta. Nunca mais me perguntaram isso, porém hoje sei a resposta.

Quando morremos, a única certeza é que somos todos iguais.
A maioria das pessoas, em vida, tentam ser melhores do que as outras. O branco tenta ser melhor que o negro. E vice versa. Moradores se achando melhor que o porteiro, a patroa achando um absurdo a filha da empregada ganhe mais que a filha dela, sendo que ambas tem faculdade, porém a filha da empregada trabalha em três empregos. A pessoa que tem mais formação acadêmica que a outra ou uma posição social melhor. Hétero vs homossexual. Um querendo ser superior ao outro, mas quando morremos, vamos todos para o mesmo lugar.

Na minha mesa, onde deitou a rica, deitou o pobre, o negro, o branco, o homossexual, o hétero, o porteiro, a empregada, a filha a empregada e da patroa, o formado, o analfabeto... Todos tratados da mesma maneira. Todos tratados com os mesmos instrumentos. Sem tratamento especial, porque ali, ninguém é melhor do que ninguém.

Quando se trabalha com a morte ou próximo dela, percebe - se que perdemos muito tempo com coisas pequenas e nos lamentamos demais, quando apenas precisamos agradecer pelo o que temos. Tudo acontece por um motivo: desde a pessoa que entra na nossa vida, as que sai e as que mantemos por perto. A vida é curta demais pra guardar rancor com pessoas desnecessárias. Aproveite cada momento, cada instante, cada pessoa. Não julgue o próximo, você não sabe o que ele (a) passa, nem como vive, não conhece sua história de vida. Somos todos iguais, mas passamos a vida inteira tentando aprender isso, mas não conseguimos ou simplesmente não queremos. E quando nos damos conta, já estamos mortos. Tarde demais pra aprendermos qualquer coisa.

Por que os mortos? 
Porque é onde todas as pessoas são iguais e livre de julgamentos.



*Técnicas de Necropsia: Identificação de corpos, abertura, evisceração e fechamento de corpos, identificação de órgãos, projeteis e traumas, fixação de peças atômicas para exames posteriores, guarda e arquivamento temporário do material, armação e limpeza da mesa de necropsia e instrumental

** Tanatopraxia: são cuidados e tratamentos dispensáveis ao corpo após a morte. Ou seja, procedimento de preparação do cadáver para o velório ou funeral, assim o corpo não sofrerá pelo tempo solicitado pelos familiares e as decomposições naturais.




terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nerdice² 2.0

O blog está voltando a ativa, após um tempo parado, por falta de tempo, dessa pessoa que vos fala.

Não sei se todos sabiam, mas eu tinha um segundo blog, com direito a uma página no Facebook, em parceria com um amigo. Entretanto, a página foi desfeita e o blog se manteve abandonado. Afim de continuar a escrever sobre o mundo Geek, resolvi fazer uma fusão e em vez de dois blogs, o Nerdice² ganha um espaço no Blog da Mari (sim, nome novo) e um upgrade: Nerdice² 2.0

Além do Nerdice² no blog, ao longo do tempo, vou apresentando, em textos, mais novidades em ideias que venho trabalhando e, claro ainda postando os textos usuais, sobre minha vida, dia a dia, pensamentos, personalidade e um pouco da minha alma, ou seja, muitas novidades, porém mantendo sempre, a essência desse humilde blog.

Obrigada sempre pela atenção e espero que gostem do que está por vir.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Recomeço

Começar do zero nunca é fácil. Ter que refazer planos, redirecionar sua vida ou até mesmo, se afastar de algumas pessoas, por motivos que só você vai julgar ser o certo.

Tenho um jogo no meu celular, Tap Titan 2, que quando você tem dificuldade de passar de fase ou não consegue mais avançar no jogo, aperta um botão e começa tudo de novo. Um pouco mais forte, com algumas vantagens e com mais experiência. A vida é mais ou menos assim, com uma pequena diferença: no jogo, você escolhe quando recomeçar. Na vida, ela não te dá opção.

Sempre fui uma pessoa precavida, em tudo. Sempre pensei nas possibilidades, nas metas, escolhas e como seguir, caso tudo desse certo ou errado. Por um breve momento, esqueci de me programar, caso tudo desse errado, por um simples motivo: ACHEI QUE NADA DARIA ERRADO. Adivinha?
Por motivos idiotas, sérios, fúteis ou por simplesmente achar que o tempo (o senhor de tudo), ajudaria a consertar o que deu errado.

Pela primeira vez, me vi perdida. Então, foi aí que notei algumas coisas.
Eu me acomodei: me larguei de mão, digo fisicamente (só olhar uma foto de índia que tenho no insta e vai saber do que estou falando) e principalmente, parei de pensar nos estudos, de me informar sobre a área que eu gosto - área da saúde- e não procurei os cursos que queria.

Esqueci como é seguir em frente, porém lembreu de algo que a minha vó sempre dizia: "Tudo acontece por um motivo. Muitas vezes não entendemos o porquê acontece, mas o tempo lhe dirá." Como qualquer mulher da família Souza, enxuguei as lágrimas, ergui a cabeça, usei a razão (a minha amiga de sempre) e comecei a listar tudo o que queria fazer e o quanto me custaria, fosse em tempo e em dinheiro.

As coisas deram errado. E daí? Começar do zero nem sempre é ruim. As vezes, quando tudo dá errado, foi feito pra isso mesmo, para alertar,para te acordar, te colocar nos eixos e mostrar o quanto você ainda tem potencial e principalmente, o quanto você está desperdiçando a porra da sua vida, se acomodando.

Objetivo do texto? Não tenha medo de começar do zero. tenha medo de nunca sair do lugar e perceber no final de tudo, que poderia ter conquistado o mundo.
E o mais importante: a única pessoa responsável pela sua felicidade é você mesmo.










quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Porque não basta só amar

Em outubro do ano passado, vi um vídeo que uma amiga minha, Joyce, me enviou. Eu achava que era um daqueles vídeos fofos, com gatinho cantando, mas não. Tinha um texto incrível e que nunca mais consegui esquecer. De tempos em tempo, revejo o vídeo, pelo simples fato de amar o texto. Não tem o nome do (a) autor (a), pelo menos não mostra nos créditos do vídeo. É um pouco triste e nem faço ideia porque gosto tanto. 


" Tudo começou com um simples beijo, era pra ser um relacionamento, como aquele filme 'Sexo Sem Compromisso'. Ele jamais imaginaria que ela seria o amor de sua vida e a mulher que ele sempre sonhou para ser a mãe dos seus filhos.

Eles eram muito felizes, mas como em todo relacionamento, enfrentavam momentos ruins e ele pela simples falta de experiência e maturidade, achava que esses momentos ruins era o fim do mundo. Quando ele a tinha, só enxergava os defeitos. Agora que a perdeu, olha suas infinitas qualidades.

Ela era linda, bem humorada, divertida, sabia se maquiar, tinha até covinhas. Beijava como nenhuma outra, tinha o sorriso mais encantador do mundo e até mesmo queria aprender a jogar LOL, Tibia e playstation, apenas para passar mais tempo ao lado dele. Eles tinham planos para o futuro infinito, até o primeiro cachorrinho já tinha nome: prazer Flarion! Pensavam nas viagens, cobiçavam a família que iriam construir com seus filhos, pensavam como seriam a casa que iriam morar e de repente tudo esquecido, por uma sequência de erros, ocasionada por uma coisa chamada: DESGASTE. 

Sim, brigas desgastam relacionamento e com eles não foi diferente. Ela muitas vezes era irritante e ele implicante. Ela era orgulhosa e ele mais ainda. Ela era egoísta e ele não suportava. Ela era de momentos e ele equilibrado. Mas independente de tudo isso, ela era a mulher da vida dele e um dia ele acabou esquecendo isso. Ele errou uma, duas, três, seis vezes. E ela perdoou. Ou não. Fingiu aceitar simplesmente, porque o amava muito e iria lutar todos os dias, contra si mesma, para conseguir esquecer os erros dele. Mas sem eles perceberem, ali o sonho chegara ao FIM. 

Fim é uma palvra forte e dolorosa. Ele viveram o extremo da tristeza, muitas noites sem dormir, muitos ataques de fúria, muitas loucuras, gritos, brigas, apertões e arranhões, mas também viveram o extremo da alegria. Muitos sorrisos, gargalhadas, beijos, abraços, olhares, conversas, noites agarrados no quarto dele e muitos, muitos momentos que deixavam aquela sensação de que passariam a eternidade juntos. Mas como eu disse: o sonho acabou.

Depois de seus erros, ele fez de tudo para trazê - la de volta. Tentou de todas as formas fazer com que ela voltasse a sonhar junto dele. Fez de tudo, para que ela não cometesse os mesmos erros que ele cometeu, mas nada foi o suficiente. Ela achou que poderia errar e falar na cara dele:' Você também errou.' Pois bem, ela estava valente e disposta a colocar um ponto final. Então, ela deu um passo a frente e não se importou com ele, um. só. segundo. Ela sabia que fazer aquilo, o destruiria de todas as formas possíveis. O coração dele ia parar de bater por alguns segundos, o corpo congelar, as lágrimas desceriam como uma tempestade e ela sabia disso. Ela sabia disso.

Ela sentiu saudades e o vazio que ele deixou no coração dela, nunca foi preenchido. Foi nesse momento que ela quis a qualquer custo voltar no tempo e não ter cometido os mesmos erros que ele. Ela fez de tudo para reconquistá - lo, mas o coração dele estava destruído demais para aceitar. Os dois, muito esgotados, se afastaram e não se falaram mais. O tempo foi passando e como passou rápido, criando uma distância entre os dois.

Sem saber o que fazer, ele deixou o tempo resolver tudo. Pois todo mundo diz que o tempo cura qualquer coisa, não é mesmo?! Ele até saiu algumas vezes, fez algumas viagens, bebeu uns gorós, mas ainda sentia dores fortes no peito. Então, ja que nada resolvia, ele ficou no canto dele, esperando as coisas mudarem com o passar do tempo.

Ela, eu não tenho ideia do fez, mas parecia estar feliz, com seu Twitter, seu Facebook, seu Instagram sempre bem atualizados. Poderia ser apenas fachada, iguais as redes sociais dele, mas como já disse, ela era uma garota de momentos e a chance dela estar feliz e curtindo a vida, era infinitamente maiores. O tempo passou e um dia pleo shopping ele subiu uma escada rolante, no meio da subida, ele congelou, o estômago embrulhou, começou a tremer perdeu os sentidos. Ele tentava puxar o ar, mas não conseguia. Ele queria gritar, mas a voz não saía e a primeira lágrima desceu. Dois segundos depois, outras trezentas desceram. Sabe por que tudo isso aconteceu? Porque ele lembrou dela. Ele lembrou que sempre ao subir uma escada rolante, ela corria para o degrau de cima, para poder abraça - lo forte."