segunda-feira, 30 de abril de 2018

Resenha: Extraordinário - R.J. Palacio

Livro: Extraordinário

Autor: R.J. Palacio

Editora: Intrínseca 



 Escrito por Raquel Jaramillo pelo pseudônimo de R.J. Palacio, Extraordinário conta a história de Auggie Pullman que sofre de uma doença genética* que é caracterizada por uma deformidade crânio-facial. Aos 10 anos, ele irá frequentar a escola pela primeira vez, tendo que lidar com olhares, preconceitos e até mesmo o bullying.
   O livro é contado na maior parte na visão de Auggie, com alguns capítulos intercalados, sendo nas visões de amigos e familiares, mostrando como lidam com a doença de Auggie e até mesmo como isso afeta a vida deles. A linguagem é simples e singela, mas ao mesmo tempo maduro, levando em conta a idade que o protagonista tem.
   A trama não gira em torno de Auggie, em questão de superação da doença, mas sim, a forma que ele encara as dificuldades com bom humor e muitas vezes quando ele perde a paciência ou até mesmo fica triste, pela forma que ele é tratado e pelo bullying que recebe constantemente, devido a sua aparência, nos ensina sempre uma lição de maturidade.
   Outro aspecto que impressiona são quando os familiares contam as suas histórias, mostram verdadeiramente suas dores e como muitas vezes, se sentem afetados pela doença de Auggie, de forma humana, mostrando principalmente seus conflitos internos.
   Auggie é uma pessoa extraordinária e conquista todos a sua volta, com sua inteligência, amor, simplicidade e bondade.
   Extraordinário é um livro que nos ensina a não julgar o próximo, pois você não sabe o que as pessoas estão passando e que tipo de problemas elas têm. Leve a vida com bom humor e seja sempre bom com o próximo, porque quando se faz o bem, se recebe o bem.

"Talvez a verdade seja que eu não sou tão comum assim. Talvez, se soubéssemos  o que as outras pessoas passam, saberíamos que ninguém é comum e que todos merecem ser aplaudidos ao menos uma vez na vida porque todos nós vencemos o mundo." - Auggie Pullman. 

*Síndrome de Treacher Collins (ou disostose mandibulofacial) 

terça-feira, 27 de março de 2018

Crítica: Quando Nos Conhecemos

Título: Quando nos Conhecemos
Título Original: When We First Met 
Ano de estréia: 2018


Noah teve um encontro perfeito, mas não terminou da maneira que ele esperava. Três anos depois, ele consegue arrumar uma maneira de conseguir a garota dos seus sonhos de volta.
Original Netflix, Quando Nos Conhecemos traz o roteiro mais manjado do cinema: voltar no tempo, através de um dispositivo, para conquistar o amor de sua vida.

O elenco adolescente consegue fazer o seu trabalho, sem impressionar, mas também sem ser um desastre completo, exceto Adam DeVine, que interpreta Noah Ashby, poderia ter melhor atuação, porém optou em trazer as mesmas caras e bocas, já conhecidas no filme A Escolha Perfeita (Pitch Perfect).
Apesar da comédia forçada, o filme é bom apenas para passar o tempo e se distrair. Se estiver a procura de um roteiro inteligente e intrigante, ficará frustrado, já que o final é tão previsível quanto todo o filme.

Quando Nos Conhecemos é um ótimo filme para se vê a dois ou quando não tem mais nada para a ver e não quer perder tempo procurando por algo, no extenso catálogo de filmes da Netflix.








Crítica: Vende - se Esta Casa (com spoiler)

Título: Vende-se Esta Casa 
Título origina: The Open House 
Ano de estréia: 2018 


Filme original Netflix, conta a história de Logan Wallace (Dylan Minnette), que a após perder o pai em um acidente, se muda com a sua mãe, para uma casa da família, que está a venda, buscando superar o trauma familiar. Uma vez por semana, a casa fica aberta a visitação, para possíveis compradores. Após essas visitações, coisas estranhas começam acontecer dentro da casa.

O filme começa mostrando uma trama com potencial que te prende, afim de querer saber o que realmente está acontecendo e criando teorias a cada momento. É um filme de suspense, que aos poucos vai decepcionando, com poucas cenas de susto e uma tentativa falha de criar tensão, com artifícios clichês, vindo de um roteiro fraco e previsível.

Os atores Dylan Minnette (13 Reasons Why) e Piercey Dalton, que interpreta sua mãe, Naomi Wallace, conseguem entregar o que lhes foi dado: uma família destruída, por uma fatalidade e precisando começar do zero, para conseguir seguir em frente.

Porém, a maior do decepção do filme é o final, pois apesar das teorias, possibilidades e porquês, nada se explica. O filme apenas acontece. Vende - se Esta Casa, não vale o tempo perdido.
















quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Conselhos do Futuro


 Às vezes me vejo pensando na pessoa que me tornei, nas decisões que tive que tomar, nas pessoas que já gostei que hoje não são mais minhas amigas, nas pessoas que eu já gostei pra namorar ou ter algo a mais, nas pessoas que eu não gostei e hoje são minhas amigas e até nas oportunidades que já deixei passar, por ouvir as pessoas erradas ou por ser sonhadora demais. Não que sonhar seja ruim, mas é sempre bom manter os pés no chão.
 Gostaria de voltar no tempo, mas não para mudar as minhas decisões, até porque são os erros que nos faz amadurecer e aprender, mas gostaria de me dar alguns conselhos, pra não agir de forma tão impulsiva ou infantil. O que eu, de hoje, poderia dizer para mim mesma com 19 anos?

“Hoje você está com vinte e nove anos. Não está casada, não tem filhos, não tem formação no ensino superior, ainda mora com a sua mãe, não trabalha na área em que estudou e no presente momento está desempregada. Tudo parece estar uma grande bosta, mas você está bem. Tem saúde, amigos, três diplomas técnicos, encontrou a sua paixão acadêmica e profissional, tem ainda a sua mãe e namora um rapaz maravilhoso. Mas por que estou aqui? Porque gostaria de falar algumas coisas que podem de te ajuda.
Os vinte anos passam rápido, então aproveite cada oportunidade, cada momento, mesmo que sejam ruins, porque são nos dias ruins que aprendemos mais, converse mais com a sua mãe, não ouça pessoas que te diminua e acabe com a sua autoestima, você é linda, inteligente, esforçada e não deixe que digam o contrário, siga seus sonhos, não se importa com o que as pessoas pensam a seu respeito, trabalhe com o que te faz feliz, estude o que te faz feliz, não mude sua essência, nem seu jeito de ser, por ninguém, se alguém pedir, siga o conselho do Scar ‘Fuja e não volte nunca mais’. Se a sua felicidade não interferir na vida de terceiros, seja feliz, namorados vêm e vão, ou seja, nenhum sofrimento é eterno, o mesmo vale para amigos, porém os que ficarem, valorize – os. Nem todo mundo é seu amigo, cuidado em quem confia, diga a sua avó que você a ama, diga isso todos os dias, abrace-a mais vezes, cuide da sua alimentação, cuide do seu corpo, mente e alma, esteja feliz com a sua aparência. De novo, não ouça a opinião alheia se for pra te colocar pra baixo. Não se importe em ficar sozinha, às vezes você se basta e muitas outras vezes, algumas pessoas não merecem sua companhia, leia o dobro do que você já lê agora, tenha paciência com a sua mãe, não fique com vergonha de chorar, isso não te torna mais fraca, não tenha vergonha de pedir ajuda ou de aceitar ajuda, peça desculpas quando estiver errada, não discuta quando estiver com raiva, escreva mais, seja mais segura de si, você é capaz de conquistar o mundo, só confie em si mesma, se alguém disser que você não é capaz, mande SE FUDER. Isso mesmo, SE FUDER! Guarde dinheiro, acredite você vai precisar, não seja radical sobre tudo, procure saber pelo que a pessoa está passando, tenha empatia, estude sempre, aprenda sempre, adote o Loki, confie na sua intuição, ela vai te livrar de muitas enrascadas, muitas mesmo. E por último e não menos importante, vai ter um determinado momento que você vai conhecer uma pessoa chamada Tauê. Dica de ouro: não espere até o final do encontro para beijá-lo. Mostre que você gosta dele e não tenha medo de se arriscar. Ele vai ser o melhor acontecimento do seu ano e tenha certeza que da sua vida também.”

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Conto: Nem tudo é o que parece

No dia a dia, é possível presenciar diversos momentos: beijos, abraços, brigas, pedidos de casamentos, términos ou até mesmo, descontração entre amigos. A parte difícil de tudo isso é saber se as situações são realmente o que aparentam.

Nina era desenhista e como qualquer estudante, treinava muito suas técnicas, diariamente. Tinha um cabelo cruto, no estilo joãozinho e de cor verde, grandes olhos azuis e usava óculos de grau, de armação quadrada e preta. Na maioria das vezes, usava lápis de olho preto, pois realçava seus olhos e combinava com a sua pele branca.

Todos os dias, no final da tarde, ela pegava sua mochila florida com botons nerds, colocava seu material de desenho e seguia em direção do Imperator, no Méier. Sentava num banco grande de madeira, próximo a bilheteria, de frente a cafeteria e longe o suficiente da bomboniere, que sempre cheirava a pipoca, uma das suas maiores perdições.
O horário era escolhido de forma estratégica, justamente por começar as sessões de cinema e mais tarde, as peças de teatro. O objetivo era desenhar o maior número de esboços possíveis, para ganhar agilidade e melhorar suas habilidades, além de poder observar as pessoas quando estão distraídas.

Ao voltar para casa, sua irmã mais velha, Miranda, era sua crítica pessoal. Ela também desenhava há mais tempo e trabalhava como arquiteta. Nina gostava da maneira que sua irmã fazia suas críticas. Nunca a colocava para baixo, era sempre um elogio acompanhado de dicas, mostrando onde ela podia melhorar e onde estava perfeito. Críticas construtivas.
Após avaliar os desenhos, Miranda começou a folear o bloco. Parou ao ver o desenho de um casal de mãos dadas e olhando, fixamente, um para o outro. Mostrou o desenho para Nina e disse:
- Que bonito casal apaixonado!
- Não é um casal apaixonado. Eles estavam terminando. Ficaram de mãos dadas por um momento e fixaram o olhar, um no outro, só Deus sabe o porquê, mas assim que ele foi embora, ela começou a chorar compulsivamente - disse Nina, enquanto se sentava na cama, ao lado da irmã.
O segundo desenho era de um senhor, cabisbaixo, sentado na cafeteira, sozinho.
- Um viúvo sentindo falta da sua esposa - arriscou Miranda.
Nina estava gostando daquele jogo.
- Não. Estava apenas esperando sua esposa. Assim que ela chegou, ele não parava de sorrir.
Miranda já estava ficando chateada. O terceiro desenho era de um rapaz segurando um buquê de flores.
- Rá! Esperando a namorada. Comemoração de namoro!
Nina caiu na gargalhada com a empolgação da irmã e assentiu, em confirmação, com a cabeça. O quarto desenho era de um grupo de amigos. Eles estavam sentados na cafeteria, mas foram desenhados de costas.
- Uma saída de amigos. Uma confraternização.
O quarto ficou em silêncio por um momento. Nina demorou a responder.
- Eu ouvi a conversa, por isso sei a história. Tinha mais uma menina no grupo, mas ela morreu tinha uma semana, na época em que fiz o desenho. Ela estava andando na calçada, quando foi atropelada por um motorista bêbado. Era a mais animada de todos e amava café, por isso a confraternização foi numa cafeteria. Eles estavam fazendo uma homenagem a ela.
Miranda encarou o desenho por mais tempo que gostaria, então falou tão baixo, que parecia mais um sussurro.
- Engraçado como a primeira impressão nos engana. Achamos que conhecemos as pessoas ou o que elas passam, mas não temos a menor ideia. Nem tudo é o que parece - fechou o bloco.












sábado, 6 de janeiro de 2018

O voo

Em novembro, fiz uma viagem a Foz do Iguaçu (assunto para um próximo post), com direito a uma conexão em Congonhas. Admito que tenho um pouco de medo de voar, sempre fico tensa, ansiosa, com dor de barriga e até mesmo sem fome. E detesto, principalmente, voar na chuva, por algo chamado: TURBULÊNCIA! Quando entro no avião, penso em todas as séries, filmes e vídeos de YouTube, que tenha quedas de avião, começando pelo filme Premonição.
Após esperar pelo meu voo por cinco horas, pude refletir um muito (e mais um pouco) e percebi que não tenho medo de voar ou morrer (caso o avião caia), tenho medo de ir embora e não fazer tudo que tenho vontade e planejado.
Planejo muitas coisas a longo prazo e faço listas, com metas, para manter o hábito e porque gosto, sempre aproveitando o momento, o agora, mas quando entro no avião, penso nas pessoas que amo e o quanto falo pouco isso para elas, o quanto ainda quero estudar, aprender, crescer, a viver, a conquistar, a família que quero construir, as viagens que ainda quero e vou fazer. Morrer não faz parte dos planos, pelo menos não agora. E refletir sobre isso me faz pensar ainda mais sobre: aproveite o agora, mesmo com um futuro inteiro planejado, porque o medo não é de morrer. É de deixar tudo o que amo para trás e perceber que poderia ter feito mais. Muito mais.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Contos: A quem possa interessar

Paraíso é uma cidade pequena, com alguns costumes, pequenas tradições e muitas lendas urbanas. Em torno da cidade, há uma floresta com trilhas que dão para partes da cidade, escondida em meio as árvores. Os moradores, em sua grande maioria, são nascidos e criados na cidade. Alguns chegam a partir, mas logo retornam. Os de fora, como são chamados aqueles que não eram nascidos em Paraíso, vêm aos poucos, porém quase nunca vão embora, ficam até o fim de suas vidas.

Toda manhã, Julia acorda as seis da manhã, toma banho, veste sua calça jeans desbotada e rasgada na altura dos joelhos, sua camisa de manga comprida preta, seu coturno preto, metodicamente amarrados e seu casaco felpudo vermelho. Coloca sua bolsa transpassada em diagonal ao corpo e segue pela Trilha dos Apaixonados. Reza a lenda, que os casais que passeavam por essa trilha e parassem, mesmo que por uns instantes, na Ponte do Eterno, o amor deles durariam para sempre. A trilha termina num lugar chamado Muro das Lamentações e é para onde Julia está indo.

É irônico o Muro das Lamentações ficar no final da Trilha dos Apaixonados, mas o Muro não era apenas para se lamentar. Lá você deixa cartas, entre uma pedra e outra, para que alguém leia. O intuito não era receber respostas, era apenas para expor seus sentimentos, fossem eles apaixonados, de felicidade, tristeza, desabafo e/ou despedida. As vezes, deixavam até desenhos. Ninguém sabe ao certo como surgiu esse costume, nem mesmo os antigos, como eram chamados os mais velhos da cidade. O Muro é feito com grandes rochas empilhadas e muito alto, denominando o limite da cidade. A sensação é que o muro não foi construído, apenas existe.  Fato curioso sobre o Muro é que mesmo com três cidades vizinhas, além dos moradores de Paraíso, deixarem cartas lá, ninguém nunca se encontrou. Nem pra deixar as cartas, nem quando vão buscá - las. Os antigos falam que o lugar é místico. Os jovens chamam apenas de coincidência.

Vinte minutos depois de passar pela Ponte do Eterno, Julia chega ao Muro. Recolhe as cartas de forma lenta e as coloca com cuidado em sua bolsa. Seu pequeno ritual de toda manhã é: tomar café lendo uma das cartas, escolhida de forma aleatória. E lê o restante, após as aulas, antes da lição de casa.
Nessa manhã não foi diferente. Ao retornar a sua casa, Julia pegou uma carta e no envelope dia: "A quem possa interessar", numa letra pequena e bem desenhada. Julia esperava que não fosse uma carta de despedida, porque geralmente, são cartas de pessoas suicidas e ir para escola depois de ler alguém dizer adeus ao mundo, não era nada motivador. Abriu o envelope e começou a ler.

"Você é do tipo de pessoa que quando vê um casal apaixonado na rua, se abraçando ou se beijando e fica feliz, mesmo que a sua vida amorosa esteja uma bosta? Bem, eu sim. Me chame de estranha, esquisita, mas prefiro romântica incurável. 
Uma vez deixei de acreditar no amor. Simplesmente achava que não era algo pra mim. Eu sou a pessoa que as outras pessoas costumam abandonar. Ou magoar. Ou mentir e magoar. 

Já fui casada uma vez. Era um casamento estável, com algumas brigas esporádicas, como em qualquer outro relacionamento. Meu (ex) marido não era perfeito, assim como eu ou como qualquer outra pessoa, mas na minha cabeça, tudo seguia feliz. Tudo bem, que eu estava passando por um momento difícil de depressão e pensamentos suicidas e meu marido? Estava dando atenção e ajudando a melhor amiga, que trabalhava com ele, na época, chefe do departamento. Chegava tarde, quase todos os dias e trabalhava em alguns feriados, para ajudá - la no novo cargo. 

Na semana em que mais brigamos, ele pediu separação. Alegou que não estava pronto para estar casado, que queria pensar na vida, nas decisões que tinha que tomar e que a vida de casado não era para ele, pelo menos, não naquele momento. Disse que ele estava errado, que não sabia o que estava fazendo, que não poderia apenas não se sentir pronto. Estávamos morando juntos há dois anos. Ele não quis saber. Eu insisti pra fazer dar certo, ele não quis. Como chorei, sofri, implorei pra voltar, até entender que era realmente o fim. Então, me isolei. Não estava bem, estava perdida, como nunca estive na vida. 
Não sei você, mas eu quando começo um relacionamento, sempre, eu disse sempre, planejo cada coisa, cada passo, inclusive o que fazer depois sem a pessoa amada, caso o relacionamento chegue ao fim. Com ele não fiz isso. Foi a primeira pessoa que quis tudo: casamento, casa gigante, filhos, cachorros. Não planejei caso desse errado, porque nunca imaginei que daria. 

Naquele ano, nada poderia ser feito, então planejei o que fazer para o próximo. Cursos, sair do emprego, estágio, arrumar emprego novo, colocar as leituras em dia, etc. Não que meu casamento me impedisse de  fazer todas essa coisas, mas de uma certa forma, a mulher se anula, mesmo que de forma involuntária. 

Quatro meses depois, meu (ex) marido pediu para voltar, mas eu não quis. Ainda estava muito magoada, não confiava mais nele. Não queria sofrer, não precisava mais sofrer. Estava no comando da minha vida e, de certa forma, amava aquela nova fase. 
Saí com outras pessoas. Algumas com significado, outras não. Saí com as amigas, fui a happy hour, bebedeiras, viagens, noites na Lapa e muitas, muitas bebedeiras. Até mandei mensagem bêbada para o ex. Não me julgue, você já fez isso. Se não fez, fará. Acredite. 
Fiquei com um cara, só nos beijos e depois de duas semanas, ele se revelou um grande babaca. Não que ele tenha dado em cima da minha melhor amiga ou algo assim, mas era o tipo de cara que vive de status de fodão e por isso, mentia compulsivamente. Oficialmente desisti. Me vi focada na minha profissão e casada com a mesma. Eu seria a tia legal que iria cuidar dos filhos das minhas amigas. 

Meses se passaram e fui apresentada a um rapaz. Dois anos mais novo que eu, tem os mesmos gostos que eu (de uma forma estranha e assustadora) e de uma personalidade ímpar. Apesar da timidez de ambos, conversamos por horas, em um bar que fomos apresentados e trocamos telefones. Passamos a conversar por mensagens, todos os dias. Deixamos claro nossas intenções, de irmos devagar. Ele concordou e entendeu, a forma que estava magoada. Saímos diversas vezes: cinemas, bares, restaurantes, baladinhas e tudo estava indo muito bem. Tão bem que eu estava apavorada com rumo de nossas vidas. O sentimento ia crescendo, mas eu não queria admitir, estava com medo de ser magoada de novo. Pensa numa pessoa que cria expectativas? Sou eu. Tenho até expectativas adolescentes, de tanto que crio. 

Saímos. Ficamos. 
De novo. 
De novo.
De novo. 
De novo. 
Me vi apaixonada. Ele também. Tive medo. Ele não. 
Mesmo com medo, me joguei no desconhecido. No novo relacionamento. 
Pulei, de olhos abertos e com medo, mas também me joguei com amor, paixão, felicidade e a melhor parte de todas, reciprocidade. Ele fez me sentir segura, como nunca me senti. Ele acha que sou capaz de tudo nessa vida. Tudo mesmo. 

Ele prometeu nunca me magoar, mas acho que ninguém tem real intenção de magoar quem ama. Acaba acontecendo. Porém, gosto das suas atitudes, que afirmam cada vez mais, que ele não tem intenção me machucar. 


Não sei quem está lendo essa carta, nem se chegou ao fim dela. Espero que sim. Tenho uma última coisa a dizer: confie na sua intuição. Se acha que algo vai dar errado, não faça. Se acha que alguém possa te magoar, mas mesmo assim quer tentar? Tente, mas mantenha os pés no chão. Siga a sua intuição, ela me ajudou muito, a sua pode te ajudar também." 

















quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Contos: Morena

Dudu era um rapaz tranquilo e calado. Não gostava de jogar conversa fora, apenas para preencher o silêncio. Era fã de conversas substanciais. Dizia para si mesmo "seja menos anti social", então, como de praxe, almoçava todas as sextas-feiras, com seus colegas de trabalho. Ele sempre ficava isolado, no canto da mesa, enquanto todos falavam ao mesmo tempo, coisas sobre: futebol, mulheres e política.

Em um desses almoços, Dudu sentara no seu lugar sempre, enquanto o pessoal discutia fervorosamente, sobre campeonato Brasileiro, ele olhou para uma grande janela de vidro do restaurante, que dava diretamente para rua. Foi quando ele a viu. Tudo a sua volta ficou devagar, seu coração acelerou, as vozes se calaram. Com o olhar, ele a acompanhou. Ela era magra, sua pele morena, seus olhos eram grandes e verdes, sua boca carnuda, pintada, com um batom vermelho sangue. Seu cabelo cacheado, preso num coque, no alto de sua cabeça. O vestido longo, preto com grandes flores azul escuros, voava levemente, quando caminhava. Ela o olhou por um instante. Desapareceu. O momento acabou. Tudo voltara ao normal. Dudu ficou imaginando se a veria de novo e se sentia tão perdido quanto Alice. "Quanto tempo dura o eterno? Ás vezes, apenas um segundo."

Na semana seguinte, almoçou todos os dias no mesmo lugar, na esperança de encontrá- la. Pensou que estava enlouquecendo. Talvez estivesse. Então, achou melhor seguir sua vida normalmente.
Na segunda-feira, almoçou e logo depois quis comer algo diferente. Conhecia um lugar perfeito: pequeno, de esquina, com tortas caseiras. A loja parecia ter parado no tempo, se o dono cuidasse, um pouco mais do estabelecimento, seria ainda mais linda. Ao chegar, Dudu travou. Sua Morena estava lá. "Sua Morena", pensou ele, "Ela nem sabe que existo."
Dessa vez, seu cabelo estava preso num trança e usava roupa social, que marcava cada curva de seu corpo. Ela comia lentamente, um pedaço de torta, de morango com chantilly e cada garfada, ficava mais feliz. Ela reparou em Dudu. Limpou a boca com o guardanapo, sorriu e disse: "Dia do lixo". Ele sorriu de volta. Ela o encarou por um tempo, mas como ele ficou em silêncio, foi embora.

Dudu se xingava constantemente: "Seu imbecil. Burro. Idiota. Perdeu a maior oportunidade da sua vida." Agora era tarde para se lamentar. Após semanas, evitando pensar no ocorrido, resolveu ir a uma livraria e, chamou um colega de trabalho. E para sua surpresa, o tal colega entendia muito de tudo e ficou feliz, pela primeira vez, por ter socializado.
Descobriu que perto do trabalho, tem um pub, que as quintas- feiras, tem promoção de happy hour. Chamou os colegas de sempre, porém nenhum deles puderam ir. Foi sozinho.

No caminho, viu uma moça, na frente de um prédio, chorando compulsivamente e sendo consolada pelas amigas, que lhe abraçavam. Quando chegou mais perto, viu que era "sua Morena". Foi até la, entregou um lenço e foi embora. "O que acontecia ali, não era da sua conta", dizia pra si mesmo. Até que sentiu uma mão, puxando levemente seu braço. Era ela. Enxugava o restante das lágrimas, cuidadosamente, para não borrar mais a maquiagem. Disse que ela era o rapaz do restaurante, da loja de tortas e da livraria. Ele ficou surpreso e assentiu. Ela agradeceu o lenço e ele a convidou para o happy hour. Aceitou.

Ele entendia sobre ela lembrar dele, do restaurante e da loja, mas quis saber da livraria, porque tinha plena certeza de que não a viu. Ela disse que o viu, entre as prateleiras, com um amigo, mas não sabia como ou se podia abordá -lo. Então, ficou na dela. Ela quis saber, quem hoje em dia, anda com um lenço de pano, no bolso. Dudu explicou que foi criado com seu avô, que o ensinara a sempre a andar com um lenço, em caso de uma donzela estivesse em apuros. Nos tempos atuais, ele sabia que, as mulheres não precisam ser salvas. São fortes, independentes e podem lidar, sozinhas, com seus problemas, mas que uma ajuda é sempre bem vinda, mesmo que seja só um lenço, pra enxugar as lágrimas. Ela sorriu. Conversaram sobre tudo: cinema, séries, livros, faculdade, trabalho, família, amores e desamores. Ela explicou o porquê de estar chorando, mesmo Dudu não tendo perguntado, mas ele ouviu atentamente. No fundo, estava curioso.
Há um ano, ela namorava esse rapaz, que conheceu através de um amigo. Eles tinham um relacionamento saudável, com brigas esporádicas, normal em qualquer relacionamento. Uma vez, ele fez uma viagem a trabalho e um dia antes de voltar, disse que ficaria mais dois dias, pra conhecer a cidade. Mesmo não tendo sido convidada pelo namorado, afim de lhe fazer uma surpresa, foi até ele. Chegando lá o viu com outra. Como se não bastasse, a outra era sua melhor amiga. "Melhor amiga", ela enfatizou essa última parte, fazendo as aspas com os dedos. Há seis meses, ela vinha pedindo pro ex, buscar o restante das coisas dele, entretanto, sempre arrumava uma desculpa. Querendo se livrar de vez daquilo tudo, mandou uma mensagem, dizendo que se ele não viesse buscar suas coisas, no trabalho dela, no final do expediente, jogaria tudo no lixo. Ele foi, pegou a caixa e falou, aos berros, que a culpa dele ter a traído, era dela. Por ser uma mulher chata, frígida, sem graça, melosa e grudenta. Que ele fez um favor, ficando com ela, por todo esse tempo, que ninguém mais ia querê-la, pelos motivos citados anteriormente. Ela deu um sorriso, sem graça. Dudu apenas disse: "Seu ex é um idiota. Não deve ouvir pessoas idiotas." Ela caiu na gargalhada.
Na hora de ir embora, trocaram telefones. Raquel. "Sua Morena", se chamava Raquel.

Na manhã seguinte, ele a convidou para almoçar. E os dias seguiam assim: eles almoçavam juntos, iam embora juntos e o happy hour era de lei. Tantas coisas em comum. Conversas infinitas. Risadas constantes. Troca de olhares.

Uma noite, enquanto esperavam a chuva forte passar, Dudu perguntou: "Posso te beijar?" Ela o olhou, depois de alguns segundos, respondeu: "Não sei porque ainda não beijou."
Ele a puxou pra si e a beijou apaixonadamente. Mais uma vez, o tempo parou.